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"Foi este ano a primeira vez que passei a Páscoa sem ti. Não que dê importância à Páscoa (e desculpem-ma se isto possa chocar alguém), mas é a primeira vez que realmente me está a dizer alguma coisa. É que quando estamos juntos, é só mais um dia que estamos juntos. Mas quando não estamos, custa tanto. Viajei sem ti para um sítio que sei que gostarias de viajar comigo. Escondi de ti que vinha para não te deixar triste. Disse a todos que perguntaram por ti que estavas com o pai M. de olhos tristes e cabeça em baixo. Faço para que ninguém note que estou triste. Apoio-me no R. grande e dou a ele os mimos que estão sempre guardados para ti. Estou sentada no sofá de olhos quase a chorar de saudades. Mas é assim que tem que ser, porque o pai M. também te quer ter com ele, e temos que te "dividir". Faz-me confusão dizer isto. Dividir-te! Fazer a troca. Como se fosses um objecto, uma coisa. Não gosto. Não gosto mesmo nada. Custa-me tanto sair de Lisboa sem ti. Fica sempre uma parte de mim em casa, no "nosso" cantinho. Sei que me faz bem e que te faz bem. Sei que preciso de descanso, de relaxar. Mas sei que me sinto tão melhor quando aqui estás. Fica um beijinho para ti, cheio de amor, carinho e saudades. Preciso do teu abraço brevemente. Boa Páscoa, príncipe."

Aquele beijo,
*muah*
Ana
Estou sentada na varanda. O sol está quente. Semana sim, e no entanto apetecia-me fugir daqui. Já tenho os olhos inchados de tanto chorar de culpa. Tenho a certeza de que se ele estivesse aqui comigo, se lhe confidenciasse aquilo que sinto e ele já tivesse idade suficiente para entender, que me diria que me desculpava. Porque é assim que ele é, um ser cheio de amor e carinho, um coração gigante, maior que ele próprio.
"Há alturas em que nos apetece fugir para outro mundo! Hoje apetecia-me. Para longe. Não de ti, mas dos outros. Querem obrigar-me a dizer que o que quero para nós é que continue tudo como está? Não me parece racional da parte de ninguém pedir a uma mãe que diga isso. Mesmo que o que eu queira seja o melhor para ti, não conseguirei nunca verbalizá-lo da maneira que querem que o faça. Seria o mesmo que dizer "estou bem quando não estás" ou "estou bem quando não sei de ti".
Eu quero saber de ti todos os dias, todos os momentos. Quero saber o que comeste ao almoço na escola. Quero perguntar-te o que aprendeste e com quem brincaste. Quero ver-te desenhar e descobrir que a cada dia desenhas melhor. Quero poder obrigar-te a ir para a cama contrariado. Quero poder dar-te um beijo de boa noite todos os dias. Aquilo que me pedem é que aceite que não vou estar lá sempre. Que não te vou desejar bons sonhos todas as noites, nem bons dias todas as manhãs. E se já tive que o aceitar, porque acontece semana sim, semana não, será impossível conseguir dizê-lo dessa forma.
Hoje, meu filho, tive que tomar uma decisão. Fui obrigada a isso. Ainda não a revelei a ninguém, mas tenho a certeza que todos perceberam que tive que aceitar isto, da semana sim semana não. Tomei esta decisão consciente de que seria este o desfecho, quer eu quisesse quer não. Tomei-a com a certeza de que seria o desfecho que melhor serviria para ti. Tomei-a por achar que era isto que tu irias querer, se pudesses ser tu a decidir.
Dizem-me que tens muita sorte por teres os pais que tens. Eu sei disso! Tens um pai e uma mãe, um R. e uma tia. Tens um mano e tens avós, e bisavós. Primos e primas com fartura. E os teus pais dão-se bem. Não vivem juntos, mas não discutem nem falam mal um do outro. Eu sei que tens sorte por teres tantas pessoas que gostam de ti. Também me dizem-me que as crianças se adaptam melhor que os adultos e que, se calhar, sou eu que não aceito bem "isto". Até poderia ser verdade, mas a verdade não é essa. A verdade é que eu não sei o que é melhor para ti. Mas também sei que não é alguém que não te conhece de lado nenhum que vai saber. Debato-me todos os dias com esta dúvida. Tira-me o sono de noite, e dá-me dores de cabeça de dia. Esforço-me para que não o percebas. Mas, afinal, o que é melhor para ti? Gostava tanto de ter certezas. Mas a única certeza que tenho é que quero que sejas feliz. És feliz, meu filho?
Perdoa, meu amor, todas as minhas dúvidas. Perdoa-me por não estar lá sempre. Por não te ter conseguido dar uma vida "normal". Por ter aceite naquele dia, do qual não me consigo lembrar, esta vida. Mas perdoa-me! Porque eu não me consigo perdoar."
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| yes, you are! |
Aquele beijo,
... é difícil. Eles crescem demasiado depressa e não sabemos se os estamos a educar da forma correta. Eu tenho fé que este meu pirata subnutrido perceba que o que os pais fazem é sempre o que acham mais certo para os filhos. Eu não sou nem melhor nem pior que os outros, mas se é assim que eu acredito, é assim que o vou educar. No outro dia fui buscá-lo à escola sozinha. Olhei para trás, já sentada no carro, e vi-o. Bolas, está tão crescido. Ainda me lembro dele pequenino como se tivesse sido ontem. Ainda é pequenino, mas está tão crescido. Gostava que ficasse assim para sempre.
"Sempre foi fácil aturar-te... há quem diga que pioraste com o tempo. Mas essas pessoas não estavam lá na nossa primeira noite juntos. Tu não querias comer, e preferias chorar. Choravas alto e forte. O que mais barulho fazia naquele quarto de oito mães desesperadas, que só queriam uns minutos de silêncio para poderem descansar. Quando te calavas, um outro bebé qualquer começava a chorar e tu, pumba, juntavas-te a ele. A segunda noite foi igualmente difícil. Já eu duvidava da minha capacidade de ser mãe, quando a enfermeira (da qual não sei o nome nem lhe reconheceria a cara, mas a quem agradeço profundamente) decidiu levar-te com ela para eu descansar. Descansei umas horas, graças à santa enfermeira, e a terceira noite foi fácil. Adormecemos juntos e dormimos 6 horas seguidas. Tive que te acordar para comer, pois já estava com medo que tivesses voltado ao teu jejum. A partir daí as coisas começaram a correr bem entre nós. A enfermeira deve-te ter dado um raspanete. Qualquer coisa do género "já chega de dares cabo da cabeça da mãe, porque ela já está desesperada e a ponto de te atirar pela janela".
Ainda me dás noites complicadas. Habituei-me a acordar milhares de vezes por noite, para me certificar que estás bem. Outras tantas, porque tu me chamas, seja para pedir xixi, água ou apenas para dizeres que me amas. A minha mãe pergunta-me se não era mais fácil levar-te para a minha cama (como ela fazia comigo). Eu já tentei, mas tu gostas do teu espaço. Então, eu continuo a levantar-me de noite para me certificar que estás tapado ou que não decidiste cair da cama alta que te decidi comprar (e que me atormenta muitas vezes, não vás tu cair dali para baixo).
Tirando as noites difíceis, e a tua resistência a comida, sempre foste um miúdo muito fácil. Dizem que sou demasiado paciente e até conivente contigo, mas a mãe sou eu e eu é que sei. Gosto de te educar assim. Acho que tenho feito um bom trabalho. Não temos palmadas, nem castigos. Perdoa-me se às vezes levanto o tom de voz. Sabes que não é isso que quero fazer, mas tu, por vezes, consegues tirar-me do sério, e lá se vai a parentalidade positiva pelos ares, e sai um berro mais alto do que devia. Também sabes que quando conto até três, tens mesmo que vir. Não sabes o que acontece depois do três. Nunca quiseste testar. Nem eu sei o que acontece depois do três. És educado. Às vezes esticas a corda. Mas eu percebo. Também vives semana sim, semana não com educações diferentes, e isso deve baralhar-te. Por mais que tentemos ter educações semelhantes, as "crenças" são diferentes. Eu disse ao teu pai para ler a Magda. Ele mandou-me ler o OZ. Lá está, cenas diferentes que nos baralham a cabeça sem sabermos qual é a correcta. O pai castiga, mas a mãe não! O pai deixa fazer tudo, mas a mãe não! O pai deixa deitar tarde, mas a mãe não. E o pai promete prendas se te portares bem, e a mãe não!
Apesar de tudo isso, a má sou sempre eu. Mas aceito esse lugar. Já te expliquei que o meu pai também era mais permissivo, e que a minha mãe era bem mais rígida, mas é por causa deles que eu sou assim, boa mãe. E eu sei que por causa de mim também vais ser bom pai.
No outro dia fomos ao médico. Coisa rara de acontecer, mas lá estávamos os três - eu, tu e o pai. Portaste-te tão bem. Olhei para ti de boxers, sentado na marquesa que era um grande dinossauro, e vi um homenzinho. Não abriste a boca um segundo e o doutor até achou que tinhas perdido a língua. O pai logo a seguir prometeu-te uma prenda por te teres portado tão bem. Eu não disse nada. Quando subimos no elevador para casa perguntaste-me se também tinha uma prenda. Eu disse-te que não. Mas tu querias, porque o pai tinha. Expliquei-te que a tua obrigação é portares-te bem. Que as prendas estão reservadas para os anos e o natal, ou noutros dias que nós acharmos por bem oferecer-te uma prenda. Mas não por te portares bem. Se eu não te castigo quando te portas mal e converso contigo para que percebas o que aconteceu, também não faz sentido dar-te uma prenda quando te portas bem, mas sim conversar e dar-te os parabéns. Acenaste com a cabeça e perguntaste se podias comer uma goma antes de jantar como prémio. Eu disse que sim. És inteligente e sei que percebes o que te digo, mesmo que às vezes comeces aquele choro falso que me irrita e com o qual consegues muitas vezes o que queres. Mas não comigo! Quando te abro os olhos e te pergunto "estás a chorar porquê?" tu páras. Eu vou manter esta minha coisa da parentalidade positiva. Acho que está a correr bem. E acho que eventualmente terei muito sucesso. Estaremos cá os dois para falar sobre isso, mais tarde."

Aquele beijo,
Podia ser um post sobre música, mas não é. É um post que vem cá de dentro, cheio de amor e emoção, com lágrimas e sorrisos à mistura. É um post que fala de amor incondicional de uma mãe e de um filho. É um post para me lembrar de nunca me esquecer aquilo que me fazes sentir hoje com 4 anos.
"Hoje, que fazes 4 anos, quero dizer o quanto te amo mesmo antes de teres nascido, antes ter olhado para aquele teste de gravidez. No momento em que vi aqueles dois traços, já sabia que te amava. Tinha a certeza absoluta de que já estavas a crescer dentro de mim, e que jamais alguém me faria sentir aquilo que sentia.
Sabes, não foste planeado mas foste fruto de um amor a sério, daqueles que começam muito cedo, quando as pessoas ainda são muito jovens, e que duram muitos anos, mas que infelizmente um dia terminam. Isso significa que a mãe e o pai deixaram de se amar, mas nunca deixámos de te amar. A verdade é que provavelmente estamos a fazer um trabalho muito melhor a educar-te, do que faríamos se estivéssemos juntos.
Depois de 9 meses a ter-te só para mim, tive que te partilhar com o mundo. Ainda não querias sair, e eu percebo-te. Estávamos tão bem só nós dois, porque haverias de querer sair? Partilhávamos tudo nessa altura e nunca nos separávamos. Assim que nasceste, o enfermeiro disse-me que tinhas o nariz como o meu. Depois eu vi-te e confirmei que era verdade. Do teu pai herdaste o cabelo e o espírito irrequieto. O gosto pelos jogos e a aversão a legumes. Da mãe, além do nariz, herdaste o gosto pela pintura e pela leitura. Herdaste também a forma como reviras os olhos quando a conversa não te interessa, ou os tiques nervosos quando algo não está como tu queres. Herdaste o choro fácil e até a forma como fazes beicinho. Herdaste as birras de sono ou fome, e o gosto pelo chocolate e pela música. Por mais que digam que te assemelhas a ele, não existe no mundo ser mais parecido comigo que tu. Tens tanto de mim!
Desde esse dia que quatro anos passaram e tu cresceste tanto. Já não és aquele bebé pequenino e indefeso, que eu carregava no colo encostado ao meu peito para acalmar quando chorava. Perguntaste-me no outro dia se ainda eras o meu bebé e eu respondi-te que sim. Ainda és o meu bebé. Serás sempre. Mesmo quando tiveres 18 anos e decidires tirar a carta, ou quando tiveres 25 e fores pai. Serás o meu bebé aos 32 quando mudares de emprego e serás o meu bebé quando for eu a usar fralda já bem velhinha.
Gostas de livros e música. Gostas de pintar. Gostas de me ajudar na cozinha. Gostas de sair para ir ao parque e gostas de ficar em casa o dia todo. Gostas de dar beijos e abraços. Gostas de segredos. Gostas de douradinhos e puré. Gostas de jogos na consola e gostas de brincar. Gostas dos Heróis de Higglytown e dos Little Einsteins. Gostas de me tirar fotografias. Gostas que te leve ao colo até à cama e te cante várias canções. A tua última pancada são os piratas e as framboesas. Não gostas de legumes. Não gostas de esperar. Não gostas de lojas de roupa. Não gostas do escuro nem de monstros. Não gostas do benfica. Não gostas de estar sozinho. Não gostas de laranjas nem tomates. Mas isso é aqui, nas semanas sim. Sinto que adaptas os gostos consoante as semanas. É normal, penso eu, porque a vida é diferente, os gostos e as pessoas à tua volta. Mas será normal? Só tens 4 anos!
Tão pequenino ainda, já passaste tantas fases, mas sempre mantiveste esse sorriso que me aquece o coração. Nada me faz mais feliz que ver-te sorrir. E tu sorris muito, sinal de que és feliz, certo? És feliz, não és, meu filho? Isso é o mais importante, não é? (...)"
Aquele beijo,